domingo, 10 de julho de 2011

Vinicius de Moraes - O Poeta Saudoso







Pela luz dos olhos teus
 
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.
Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius de Moraes

 
Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinícius de Moraes

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
Vinícius de Moraes



Bom dia, amigo
Que a paz seja contigo
Eu vim somente dizer
Que eu te amo tanto
Que vou morrer
Amigo... adeus
Vinícius de Moraes

 
    A Felicidade

    Tristeza não tem fim
    Felicidade sim

    A felicidade é como a pluma
    Que o vento vai levando pelo ar
    Voa tão leve
    Mas tem a vida breve
    Precisa que haja vento sem parar

    A felicidade do pobre parece
    A grande ilusão do carnaval
    A gente trabalha o ano inteiro
    Por um momento de sonho
    Pra fazer a fantasia
    De rei ou de pirata ou jardineira
    Pra tudo se acabar na quarta-feira

    Tristeza não tem fim
    Felicidade sim

    A felicidade é como a gota
    De orvalho numa pétala de flor
    Brilha tranqüila
    Depois de leve oscila
    E cai como uma lágrima de amor

    A felicidade é uma coisa boa
    E tão delicada também
    Tem flores e amores
    De todas as cores
    Tem ninhos de passarinhos
    Tudo de bom ela tem
    E é por ela ser assim tão delicada
    Que eu trato dela sempre muito bem

    Tristeza não tem fim
    Felicidade sim

    A minha felicidade está sonhando
    Nos olhos da minha namorada
    É como esta noite, passando, passando
    Em busca da madrugada
    Falem baixo, por favor
    Pra que ela acorde alegre com o dia
    Oferecendo beijos de amor
    Vinicius de Moraes

    Eu não existo sem você

    Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
    Que nada nesse mundo levará você de mim
    Eu sei e você sabe que a distância não existe
    Que todo grande amor
    Só é bem grande se for triste
    Por isso, meu amor
    Não tenha medo de sofrer
    Que todos os caminhos
    Me encaminham pra você

    Assim como o oceano
    Só é belo com luar
    Assim como a canção
    Só tem razão se se cantar
    Assim como uma nuvem
    Só acontece se chover
    Assim como o poeta
    Só é grande se sofrer
    Assim como viver
    Sem ter amor não é viver
    Não há você sem mim
    Eu não existo sem você
    Vinícius de Moraes

    Soneto de Fidelidade

    De tudo ao meu amor serei atento
    Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
    Que mesmo em face do maior encanto
    Dele se encante mais meu pensamento.

    Quero vivê-lo em cada vão momento
    E em seu louvor hei de espalhar meu canto
    E rir meu riso e derramar meu pranto
    Ao seu pesar ou seu contentamento

    E assim, quando mais tarde me procure
    Quem sabe a morte, angústia de quem vive
    Quem sabe a solidão, fim de quem ama

    Eu possa me dizer do amor (que tive):
    Que não seja imortal, posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure.
    Vinícius de Moraes

    Tomara
    Que você volte depressa
    Que você não se despeça
    Nunca mais do meu carinho
    E chore, se arrependa
    E pense muito
    Que é melhor se sofrer junto
    Que viver feliz sozinho

    Tomara
    Que a tristeza te convença
    Que a saudade não compensa
    E que a ausência não dá paz
    E o verdadeiro amor de quem se ama
    Tece a mesma antiga trama
    Que não se desfaz

    E a coisa mais divina
    Que há no mundo
    É viver cada segundo
    Como nunca mais...
    Vinícius de Moraes

    Como dizia o poeta

    Quem já passou por essa vida e não viveu
    Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
    Porque a vida só se dá pra quem se deu
    Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
    Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
    Não há mal pior do que a descrença
    Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
    Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
    Pra que somar se a gente pode dividir
    Eu francamente já não quero nem saber
    De quem não vai porque tem medo de sofrer
    Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
    Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não
    Vinícius de Moraes

    Soneto do Amor Total

    Amo-te tanto, meu amor ... não cante
    O humano coração com mais verdade ...
    Amo-te como amigo e como amante
    Numa sempre diversa realidade.

    Amo-te afim, de um calmo amor prestante
    E te amo além, presente na saudade.
    Amo-te, enfim, com grande liberdade
    Dentro da eternidade e a cada instante.

    Amo-te como um bicho, simplesmente
    De um amor sem mistério e sem virtude
    Com um desejo maciço e permanente.

    E de te amar assim, muito e amiúde
    É que um dia em teu corpo de repente
    Hei de morrer de amar mais do que pude.
    Vinícius de Moraes

    Ternura

    Eu te peço perdão por te amar de repente
    Embora o meu amor
    seja uma velha canção nos teus ouvidos
    Das horas que passei à sombra dos teus gestos
    Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
    Das noites que vivi acalentando
    Pela graça indizível
    dos teus passos eternamente fugindo
    Trago a doçura
    dos que aceitam melancolicamente.
    E posso te dizer
    que o grande afeto que te deixo
    Não traz o exaspero das lágrimas
    nem a fascinação das promessas
    Nem as misteriosas palavras
    dos véus da alma...
    É um sossego, uma unção,
    um transbordamento de carícias
    E só te pede que te repouses quieta,
    muito quieta
    E deixes que as mãos cálidas da noite
    encontrem sem fatalidade
    o olhar estático da aurora.
    Vinícius de Moraes

    Se você quer ser minha namorada

    Ai, que linda namorada
    Você poderia ser
    Se quiser ser somente minha
    Exactamente essa coisinha
    Essa coisa toda minha
    Que ninguém mais pode ser
    Você tem que me fazer um juramento
    De só ter um pensamento
    Ser só minha até morrer
    E também de não perder esse jeitinho
    De falar devagarzinho
    Essas histórias de você
    E de repente me fazer muito carinho
    E chorar bem de mansinho
    Sem ninguém saber porquê
    E se mais do que minha namorada
    Você quer ser minha amada
    Minha amada, mas amada pra valer
    Aquela amada pelo amor predestinada
    Sem a qual a vida é nada
    Sem a qual se quer morrer
    Você tem que vir comigo
    Em meu caminho
    E talvez o meu caminho
    Seja triste pra você
    Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
    E os seus braços o meu ninho
    No silêncio de depois
    E você tem que ser a estrela derradeira
    Minha amiga e companheira
    No infinito de nós dois.
    Vinícius de Moraes

     
    Chega de Saudade

    Vai, minha tristeza, e diz a ela
    Que sem ela não pode ser
    Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
    Porque eu não posso mais sofrer

    Chega de saudade, a realidade é que sem ela
    Não há paz, não há beleza
    É só tristeza e a melancolia
    Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

    Mas, se ela voltar, se ela voltar
    Que coisa linda, que coisa louca
    Pois há menos peixinhos a nadar no mar
    Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

    Dentro dos meus braços
    Os abraços hão de ser milhões de abraços
    Apertado assim, colado assim, calado assim
    Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

    Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
    Não quero mais esse negócio de você viver assim
    Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim
    Vinícius de Moraes

    Amor em paz

    Eu amei
    Eu amei, ai de mim, muito mais
    Do que devia amar
    E chorei
    Ao sentir que iria sofrer
    E me desesperar

    Foi então
    Que da minha infinita tristeza
    Aconteceu você
    Encontrei em você a razão de viver
    E de amar em paz
    E não sofrer mais
    Nunca mais
    Porque o amor é a coisa mais triste
    Quando se desfaz
    Vinícius de Moraes

    Ausência

    Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
    Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
    No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
    E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
    Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
    Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
    Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
    Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
    Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
    Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
    Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
    Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
    Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
    E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
    Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
    Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
    E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
    Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
    Vinícius de Moraes 

    O VELHO E A FLOR

    Por céus e mares eu andei,
    Vi um poeta e vi um rei
    Na esperança de saber
    O que é o amor.

    Ninguém sabia me dizer,
    Eu já queria até morrer
    Quando um velhinho
    Com uma flor assim falou:

    O amor é o carinho,
    É o espinho que não se vê em cada flor.
    É a vida quando
    Chega sangrando aberta
    em pétalas de amor.
    Vinícius de Moraes 

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